A mulher chorava porque já havia tentado tudo e não conseguia avanço no direcionamento do filho. Ele não se dedicava aos estudos, nem arranjava trabalho. Embora um tanto boêmio, não fazia arruaças nem usava drogas. Era um garoto bom e gentil. Seu maior pecado: ser bon vivant e não ter convicções quanto ao futuro. Afora isso, era honesto, sociável, conquistava amizades e gostava de ajudar as pessoas.
A mãe sempre foi a melhor aluna da classe e, desde cedo, arranjou um emprego estável. Fazia o gênero perfeccionista. Sua expectativa era que o filho seguisse seus passos e estilo e assumisse as escolhas maternas. Como isso não se concretizou, mãe e filho viviam em conflito. Por mais que ela tentasse convencê-lo a mudar, só colhia decepção e afastamento.
O jovem amava a mãe, mas não se identificava com as imposições dela. Resistia. Porém, quando saía de casa, carregava o peso da culpa que, invariavelmente, a mãe lhe atribuía, utilizando, inclusive, a chantagem emocional. Por seu turno, ela fazia o que deveria ser feito: cobrava, exigia, soltava a ladainha de sempre. Ele, porém, já não mais a ouvia.
A mãe sofria com a aparente recusa do rapaz. Buscou uma terapeuta para espelhar a situação de forma isenta e que a aproximasse da realidade. Com a ajuda externa, começou a compreender, finalmente, que precisaria mudar a abordagem, a linguagem e o conteúdo, se quisesse ainda influenciar o filho.
Aprendeu a valorizar as virtudes do rapaz. Descobriu que era um jovem feliz e que o grau de contentamento era o melhor critério para avaliar a postura de uma pessoa diante da vida. Compreendeu que as escolhas cabiam somente a ele. Lembrou-se que, em sua juventude, também havia feito escolhas diferentes das recomendadas pelos pais e, como ele, umas deram certo, outras não. Aproximou-se então do filho. Conseguiu espaço para conversar sem cobranças ou culpas. Ele passou a ouvi-la melhor e até pedia sua opinião de vez em quando.
Fez sentido para ela um antigo poema de Kalil Gibran acerca dos filhos que dizia algo assim “Tu podes hospedar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas habitam a casa do amanhã, que tu não podes visitar, nem mesmo em teus sonhos.”
A mãe aquietou-se, aceitou o destino e viu o filho crescer.

2 comentários:
Olá Simone,
Incrível! Me identifiquei demais com o texto.
Na minha juventude era mais ou menos assim, mas ela aprendeu a me ver com mais clareza e eu aprendi a compreendê-la mais. Ralacionamentos entre mãe e filho sempre tem dessas coisas.
Lindo texto mesmo.
Um beijo e ótimo domingo.
Olá Simone! É dificil para uma mãe entender que os filhos não são dela e que são seres com vontade própria. Temos que os ensinar a voar, mas depois eles têm que voar sozinhos e a nós compete desejar-lhes boa sorte nas escolhas e que sejam felizes. Eu tenho 2 filhos já adultos e hoje o que mais quero para eles é que sejam felizes; a experiência que fui adquirindo ao longo do crescimento deles fez-me entender que o mais importante é que sejam felizes e que trabalhem naquilo que gostem; o importante não é ter um emprego em que ganhem muito; o que interessa é que sejam felizes naquilo que fazem mesmo que o salário não seja lá essas coisas, pois na vida o que importa é ser feliz; o resto virá por acréscimo. Um beijinho e parabéns pelo texto
Emília
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