sábado, 11 de setembro de 2010

Palavras...



A varanda da casa por onde circula, corre, uma mansa brisa de começo de noite. Na varanda, uma  pequena mesa de madeira e duas cadeiras. Sobre a mesa um caderno e uma caneta. E uma mulher a sós com as suas ideias, pensando na vida.  Há nela uma saudade infantil do trem que não mais corre nem apita pelos trilhos vazios perto de sua casa. A mulher está muda, palavras não lhe saem da boca contraída num rictus nervoso. Somente a zoada dos carros que passam na rua, lá fora, rompem a parede de silêncio que a mulher ergueu em torno dela. 

Sim, a mulher bem que sabe que para lá de seus portões, a vida continua e o mundo prossegue seu ritmo. A essa hora as pessoas estão saindo do trabalho apressadas a chegar em casa, retornar a família, jantar, conversar um pouco, ver as novelas do dia, porque o mundo da telenovelas é muito mais fascinante do que o mundo real em que todos vivemos ou sobrevivemos. A mulher  olha em torno e percebe que as paredes estão sujas, precisam urgentemente de uma nova pintura assim como ela talvez também precise de uma nova alma, de um novo coração, de uma nova vida. Quem sabe? 

A mulher traz entre as mãos um livro de Antônio Maria. A mulher gosta dos livros  de Antônio Maria. A mulher folheia as páginas e lê em voz alta, mesmo sabendo que não há, no momento, ninguém para ouvi-la  "NÃO QUERO ESCREVER BONITO. NÃO ESTOU VISANDO O PÚBLICO NEM QUALQUER LEITOR ISOLADO. ESTOU ESCREVENDO SIMPLESMENTE"...A mulher larga o livro e pensa que é isso mesmo que ela está precisando. Apenas escrever simplesmente sem se importar com mais nada, ir depositando as palavras no papel como quem planta sementes em terra árida ou num terreno fértil. Semear. 

A mulher  então se pergunta: e por que não estou escrevendo agora? Estarei sem vontade, estarei sem ideias, estarei sem palavras? Contudo, eu sei que devo escrever que tenho que escrever sob pena de perder a minha identidade. Não sou mais uma mulher  feita de palavras? Não é a palavra que dá um certo sentido à minha existência? Sem palavras, sem as minhas palavras não passo de uma coisa inútil e estéril. E minha humanidade perde um bocado de seu conteúdo, me deixa vazia feito uma caixa oca. É, estas paredes realmente precisam de uma nova pintura assim como eu necessito, careço de novas palavras para simplesmente escrevê-las.




"Todos estes versos soltos... dispersos
No meu novo universo serão
Palavras do coração."

1 comentários:

Vagner Lopez disse...

Oi Simone!

Nossa! Que texto lindo! Lindo, lindo mesmo!
Me identifiquei com alguns dos trechos... algumas vezes me pego assim, pensativo, contemplativo...
lindas palavras.

Um belo final de semana pra você. Beijo grande.