Outro dia, em minha caminhada matinal com o Eros - meu cachorro -, encontrei um velhinho, que, pela aparência física, beirava os 80 anos. Vestia uma bela camisa listrada de mangas compridas e calção, desnudando as pernas ainda firmes. Contudo, seu passo curtinho denunciava uma debilidade desproporcional a sua aparência. Quando me aproximei, ele me abordou, indagou meu nome e pediu ajuda. Confessou que estava meio perdido. Morava perto dali, mas não sabia voltar para casa, ainda que não quisesse voltar naquela hora, pois procurava por uma mulher de nome Viviane que havia sido muito atenciosa com ele. Percebi sua perturbação. Colhi as referências de que ele dispunha para situar-me onde seria a sua casa. Embora não dispusesse de tanto tempo, resolvi conduzir aquele velho homem e me submeter ao seu ritmo lento - com paradas freqüentes.
O caminho de sua casa foi enfeitado por histórias de sua vida, lembranças e lapsos de memória. Depois que perdera a mulher, sua saúde e qualidade de vida se deterioraram vertiginosamente. Contou-me que não gostava de ficar em casa, pois não tinha nada para fazer ou com quem conversar. Ademais, estava disposto a procurar pela tal Viviane. Apesar de desencorajá-lo em seu empreendimento, cá com meus botões, admirei-lhe a rebeldia diante de sua sina.
Pus-me a refletir sobre o enclausuramento, a ociosidade e a solidão da velhice na tocaia da selva de pedra em que vivemos. Os descendentes, em seus mundos frenéticos, nunca têm tempo para uma conversa mais descontraída, florida de reminiscências. Pensei que, se eu chegar a esse estágio da vida, ao invés da cativa diligência dos filhos, preferirei passar meus dias em um asilo ou retiro com quintal e jardim, onde conviverei com pessoas cujas lembranças farão eco em minhas próprias recordações.
Enquanto isso, Eros puxava a coleira, pois queria imprimir celeridade à caminhada. Fiquei entre o velho e o cachorro. Não podia ficar lado a lado com o ancião, pois corria o risco de não avançar no percurso; nem poderia acompanhar o Eros, senão perderia o idoso de vista. Administrei os dois como pude até alcançar a praça, de onde o velho, para meu alívio, avistou seu apartamento. Parti com o sentimento de missão cumprida. Minutos depois, acometeu-me o receio de que amanhã ele ganhe novamente as ruas procurando por uma tal Simone.
O caminho de sua casa foi enfeitado por histórias de sua vida, lembranças e lapsos de memória. Depois que perdera a mulher, sua saúde e qualidade de vida se deterioraram vertiginosamente. Contou-me que não gostava de ficar em casa, pois não tinha nada para fazer ou com quem conversar. Ademais, estava disposto a procurar pela tal Viviane. Apesar de desencorajá-lo em seu empreendimento, cá com meus botões, admirei-lhe a rebeldia diante de sua sina.
Pus-me a refletir sobre o enclausuramento, a ociosidade e a solidão da velhice na tocaia da selva de pedra em que vivemos. Os descendentes, em seus mundos frenéticos, nunca têm tempo para uma conversa mais descontraída, florida de reminiscências. Pensei que, se eu chegar a esse estágio da vida, ao invés da cativa diligência dos filhos, preferirei passar meus dias em um asilo ou retiro com quintal e jardim, onde conviverei com pessoas cujas lembranças farão eco em minhas próprias recordações.
Enquanto isso, Eros puxava a coleira, pois queria imprimir celeridade à caminhada. Fiquei entre o velho e o cachorro. Não podia ficar lado a lado com o ancião, pois corria o risco de não avançar no percurso; nem poderia acompanhar o Eros, senão perderia o idoso de vista. Administrei os dois como pude até alcançar a praça, de onde o velho, para meu alívio, avistou seu apartamento. Parti com o sentimento de missão cumprida. Minutos depois, acometeu-me o receio de que amanhã ele ganhe novamente as ruas procurando por uma tal Simone.

4 comentários:
Acho engraçado a Senhora ficar chamando os outros de velho.
Mas ficou bom o texto, como sempre.
Beijinhos!
Delano
Que linda história, Simone! Com certeza que no dia seguinte ele iria de novo à procura da tal senhora. A velhice preocupa-me neste aspecto; os filhos na sua correria frenética esquecem os que tudo lhe deram; não têm tempo, mas os pais tiveram sempre todo o tempo disponível para eles; couberam sempre todos em casa, mas agora os pais não cabem...têm de ir para um asilo; às vezes até é melhor, pois têm companhia e cuidados de saúde; o que é mau é os filhos largarem-nos lá e não arranjarem tempo para os visitarem, para lhes mostrtar os netinhos; para irem aos shoppings, isso, tem que ser, mas para irem dar um beijinho aos pais, não há tempo. Tenho muita pena desses! Um beijinho, Simone e...um dia os meus filhos ( se calhar a vista já me faltará..ou não estarei cá) ainda vão ler os teus livros. Eu gosto muito de ler....colocarei umas lunetas se preciso for para ler os livros que um dia escreverás.
Emília
Vai passar o natal ai em Fortalesa??
Um feliz natal pra vc. querida!!
e por quê vocês foram postos 'frente à frente' ? vc já pensou nisso ? e se sim, mudou seu pensamento qto ao q achar que se fará amanhã ?
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