quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Inveja



Estava eu numa sala de espera de um médico - sina de todos nós -, quando, para preencher o tempo ocioso, folheei uma revista despretensiosa e, por acaso, me deparei com um artigo que arrebatou meu encantamento. Que propriedade surpreendente daquele autor desconhecido! Confesso, senti uma ponta de inveja por não ter sido eu a autora do belo escrito.

Ato contínuo, me dei conta de que o mundo está repleto de gente que escreve mais e melhor que eu. Ciente da minha pequenez, senti imenso alívio por não ser eu o limite de mim mesma. Dei graças por me lembrar de que o caminho da arte e da busca da beleza é infinito, anos-luz de qualquer vã pretensão.

Afinal, como não invejar a poesia de Cecília, a erudição de Yourcenar, o humor de Veríssimo, a simplicidade de Adélia, a originalidade de Rosa e Joyce, a perfeição de Machado, a percepção de significado de Manoel de Barros, a genialidade de Pessoa, o pioneirismo de Raquel, a versatilidade de Moreira Campos, a densidade de Clarice, a leveza de Rubem Alves, o surrealismo de Saramago, o poder da história na história de Ana Miranda?!

E como eu passaria sem o passarinho do poema de Quintana?! Uma pedra seria apenas uma pedra se Drummond não tivesse encontrado uma no meio do caminho. Minha solidão seria de cem anos sem García Márquez. E como ser fiel à paixão sem os sonetos de Vinícius?! Pensar seriamente sobre a questão da mulher soaria superficial sem a assertividade de Beauvoir. Ficariam perdidas para sempre as chaves do reino sem a penada de Cronin. Como pleitear um lugar ao sol sem o outro Veríssimo (o pai)? E, certamente, padeceria de tédio sem as travessas lembranças do Sítio do Picapau Amarelo, de Lobato...

Que graça teria a existência sem a irreverência de ilustres autores anônimos? Sem contar com os escritores que estão por vir - muitos ainda não se acham sequer no pensamento de seus progenitores... Mas, por certo, escreverão obras-primas de gerar cobiça. O que dizer das obras que ainda não li, mas que tenho notícias de sua grandiosidade? E as que nunca lerei? Ufa! Um universo literário de encantamento tridimensional - passado, presente e futuro - a assombrar e instigar...

Ah! Que inveja aliviada que sinto...

O velho, a mulher e o cachorro



Outro dia, em minha caminhada matinal com o Eros - meu cachorro -, encontrei um velhinho, que, pela aparência física, beirava os 80 anos. Vestia uma bela camisa listrada de mangas compridas e calção, desnudando as pernas ainda firmes. Contudo, seu passo curtinho denunciava uma debilidade desproporcional a sua aparência. Quando me aproximei, ele me abordou, indagou meu nome e pediu ajuda. Confessou que estava meio perdido. Morava perto dali, mas não sabia voltar para casa, ainda que não quisesse voltar naquela hora, pois procurava por uma mulher de nome Viviane que havia sido muito atenciosa com ele. Percebi sua perturbação. Colhi as referências de que ele dispunha para situar-me onde seria a sua casa. Embora não dispusesse de tanto tempo, resolvi conduzir aquele velho homem e me submeter ao seu ritmo lento - com paradas freqüentes.

O caminho de sua casa foi enfeitado por histórias de sua vida, lembranças e lapsos de memória. Depois que perdera a mulher, sua saúde e qualidade de vida se deterioraram vertiginosamente. Contou-me que não gostava de ficar em casa, pois não tinha nada para fazer ou com quem conversar. Ademais, estava disposto a procurar pela tal Viviane. Apesar de desencorajá-lo em seu empreendimento, cá com meus botões, admirei-lhe a rebeldia diante de sua sina.

Pus-me a refletir sobre o enclausuramento, a ociosidade e a solidão da velhice na tocaia da selva de pedra em que vivemos. Os descendentes, em seus mundos frenéticos, nunca têm tempo para uma conversa mais descontraída, florida de reminiscências. Pensei que, se eu chegar a esse estágio da vida, ao invés da cativa diligência dos filhos, preferirei passar meus dias em um asilo ou retiro com quintal e jardim, onde conviverei com pessoas cujas lembranças farão eco em minhas próprias recordações.

Enquanto isso, Eros puxava a coleira, pois queria imprimir celeridade à caminhada. Fiquei entre o velho e o cachorro. Não podia ficar lado a lado com o ancião, pois corria o risco de não avançar no percurso; nem poderia acompanhar o Eros, senão perderia o idoso de vista. Administrei os dois como pude até alcançar a praça, de onde o velho, para meu alívio, avistou seu apartamento. Parti com o sentimento de missão cumprida. Minutos depois, acometeu-me o receio de que amanhã ele ganhe novamente as ruas procurando por uma tal Simone.