quarta-feira, 15 de junho de 2011

A artista maior...




A natureza é artista obstinada de apurado senso estético. Na terra, na água e no ar, ela caprichosamente executa seus engenhos. Para compor suas obras, utiliza recursos de toda ordem, seja areia, chuva, fogo, sombra, pedra, tronco, casca, folha, pétala, pena, estrume, bicho, coral, peixe, gente. E não falta tema nem oportunidade para que seu gênio indomável se manifeste e revele encantamento.

Outro dia em viagem pelo sertão, sobressaltei-me ao ver o céu emoldurado pela janela do carro. Dei-me conta de que o firmamento é uma imensa tela onde a Natureza pinta e borda infinitas obras-primas ao belprazer. Vi imensas bandagens verticais de nuvens ralas pinceladas pela impressionista maior. Seria uma cortina, plumas, um véu de noiva em modelo de faixas? Ou seria tudo isso junto?

Leques, girassóis, figuras espectrais gigantescas prateadas, douradas, dégradés, painéis dinâmicos de cores indefiníveis que tornam insignificantes os mais sofisticados programas de multimídia.

A abóbada celeste e suas imagens surrealistas sempre foram fonte de inspiração para os artistas terrenos. Basta erguer a vista duc in altum que não faltarão idéias repentinas em profusão. Nesse instante, olho através da janela de meu quarto e assisto ao espetáculo crepuscular. O céu cor de rosa se despede e fecha sem pressa as cortinas do último ato do astro-rei. Bravo!

A noite chega de mansinho, com suas luzes dissimuladas. No ocaso, a paisagem celeste do dia se retrai sob o manto escuro para que as estrelas e o luar ganhem ressalto em mistério e malícia.

Da outra janela do quarto, se projeta a lua, adulta, enigmática, com seus matizes de brilho e penumbra, a desvelar o erotismo latente. Nesse painel semi-oculto, o piscar hesitante das estrelas nos encandeia. Favorece a vertigem, a sedução. E, nesse transe, a humanidade se inspira para outras artes até que a mãe-natureza seja, mais uma vez, deflorada pelo sol e dê à luz uma nova criança que, por certo, será diferente de todas as outras.

E esse dia-filho deverá ser apreciado e vivido em sua singularidade e plenitude, porque é único.

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