Conheci uma mulher que tinha mágoa profunda do marido (e vice-versa). Mal se falavam. Acomodaram-se com esse clima frio e se protegiam no frágil casulo da indiferença. Ela vivia na rua. Ele na televisão. Vez perdida, na calada da noite, sem trocar uma palavra, faziam sexo. Ele a usava. Ela fingia ser usada. E nessa rotina, trinta anos se passaram. Já um amigo se queixou que sua esposa o sufocava. Travesso, denunciou: “Minha mulher é minha proprietária; parece que me comprou no supermercado, mas nunca vi a nota fiscal!”
A união entre duas pessoas é do tamanho da ambição de cada uma. Uns se conformam com pouco. Outros querem demais. Mas há aqueles que têm o senso da medida e conseguem um patamar que os realize e os ajude a evoluir como seres humanos e companheiros. Esses, se perderam a receita do sucesso, não deixaram de revelar alguns saudáveis ingredientes de seus relacionamentos, como a boa vontade para ouvir e compreender, uma franca dose de tolerância, amplo espaço para o compartilhamento de dúvidas, medos, sonhos. Gentileza? Nunca é demais, diriam. Carinho? Muito, muito carinho é o que se observa entre esses casais. E a voz do coração, por meio do diálogo, é, provavelmente, o segredo que garante o ponto de consistência desse tipo de relação venturosa.
Há, todavia, quem se case e deseje continuar na mesma vida de solteiro. Preferem dosar sua conduta com individualismo, egoísmo, perfeccionismo, ingredientes não compatíveis com a vida a dois. Nesse modelo, tem quem ouse temperar sua química relacional com pitadas de sadismo. A propósito, são esses “ismos” os predadores que vão consumindo e aniquilando o amor e a energia positiva.
Como nutrir uma união que se pretende autêntica, sem dosála com generosidade, dedicação, cumplicidade e renúncia? Humanamente impossível! Sem esses investimentos pessoais, a relação acaba se tornando um “faz de conta que somos um casal”. Nesse hiato, deixam de ser amantes e companheiros, passando a ser meros estranhos que se obrigam a dividir o mesmo teto, às vezes por anos a fio.
Cabe a cada um cuidar do encontro e manejo das águas em que navega a dois, pois, parodiando o grande poeta Fernando Pessoa, “navegar é preciso, casar não é preciso”.

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