Amor à primeira vista... será? Uma paixão avassaladora o domina. Nada mais tem importância. Sente-se nas nuvens: o céu é o limite. Resolve investir pesado na conquista: flores, presentes,poesia, cinema, sedução. Infalível! Ela não resiste e se entrega a esse homem de outro mundo: um deus grego!
Nos primeiros momentos, um romance tórrido, incomum. Com o passar do tempo, naturalmente, o ardor vai cedendo ao tempero suave do carinho e bem querer. Confunde esse momento com frieza e o considera assim. A partir de então, adota uma postura própria para um clima frio, por vezes gelado: protege-se, enclausura-se.
Nesse momento, já percebeu que a mulher do lado é mais atraente. Sente saudades do calor da conquista. Associa a nova musa ao fogo latente, projetando graça e sensualidade que não mais enxerga na companheira. Quer a outra. E encontra a outra. E depois outra e mais outra, numa busca sem fim. E desse modo, no seu imaginário, procura a deusa que acredita estar no Olimpo a sua espera.
Porém, atinge somente a paixão primeira - fugaz e periférica. Abandona o barco antes de navegar nas águas profundas do amor. Restringe-se às emoções das ondas que se quebram na praia da paixão. Tem medo da grandeza do (a)mar. Receia o desconhecido. Prefere ancorar na praia e ser um mero espectador da sua infinita beleza. Não se lança. Foge. Contenta-se em surfar nas ondas praianas.
Não faz idéia da intensidade do prazer que é deixar-se levar pelas águas mansas do infinito. Teme as tempestades e maremotos que acontecem na vastidão do oceano. Porém, esquece que, sem isso, não haveria ondas revoltas, nas quais encontra sua fonte de inspiração. Renuncia. E, como os antigos, só pressente no horizonte um abismo que irá tragá-lo e destruí-lo.
E nessa vertigem, vão-se passando os anos sempre a esperar a onda-deusa que não quebre na praia e o mantenha na crista de sua emoção. No entanto, como a natureza das ondas é efêmera e seu destino é se transformar em simples espumas, o príncipe das marés estará condenado a viver (e morrer) na praia.

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