quinta-feira, 16 de junho de 2011

ME DÁ UM DINHEIRO AÍ...


Amizade e vil metal são dois elementos incompatíveis. A transparência da amizade com o caráter melindroso do dinheiro produz uma mistura estranha. Um consome o outro numa reação química tóxica e volátil. Inadvertidamente, vez ou outra, acabamos experimentando essa solução amarga...
Tive uma colega de trabalho que não nutria maiores interesses por mim, entretanto, uma vez me dispensou uma simpatia incomum, que só vim a entender quando, no final do expediente, me pediu dinheiro emprestado. Embora tenha pago a dívida (com atraso, claro!), o que me incomodava era que, passava dias sem me dar atenção, mas quando sorria para mim, eu já sabia o que viria depois...
 Um dia, quando ela me veio simpaticamente passar um vale, criei coragem para dizer-lhe que me sentia desconfortável com a situação... Ela não mais me pediu dinheiro emprestado, mas também deixou de falar comigo.
 Já uma amiga me pediu uma importância em dinheiro, prometendo pagar tão logo recebesse uma grana de uma causa ganha na justiça. Ela realmente ganhou a causa, mas até hoje não me restituiu o empréstimo. Nesse caso específico, resolvi comigo anistiar a dívida e manter o vínculo.
 Outro dia, um colega veio lamentar que um amigo seu havia pedido dinheiro emprestado, não lhe havia pago e ainda o estava evitando. O credor precisava cobrar a dívida, mas me confessou seu constrangimento em fazê-lo. É curioso... uma pessoa faz o favor de emprestar dinheiro, o devedor não paga e quem fica constrangido é o credor!
 É claro que existem as exceções e tive oportunidades de experimentá-las. Emprestei a algumas pessoas que religiosamente me retornaram com os juros da gratidão.
 Hoje, se um amigo está em dificuldades financeiras e tenho alguma quantia disponível, concedo o empréstimo. Mas, cá com meus botões, considero doação. Se ele puder e quiser me retornar o dinheiro, é lucro. Se não, faço questão de dizer-lhe que não precisa, para que ele não se sinta em dívida comigo e me evite. Se a quantia requerida vai me fazer falta, digo que não tenho para emprestar (o que não deixa de ser verdade). Agora, se não for amigo de verdade e, mesmo que eu disponha do dinheiro, nego o empréstimo categoricamente. Assim, não perco amigos, nem compro inimigos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A artista maior...




A natureza é artista obstinada de apurado senso estético. Na terra, na água e no ar, ela caprichosamente executa seus engenhos. Para compor suas obras, utiliza recursos de toda ordem, seja areia, chuva, fogo, sombra, pedra, tronco, casca, folha, pétala, pena, estrume, bicho, coral, peixe, gente. E não falta tema nem oportunidade para que seu gênio indomável se manifeste e revele encantamento.

Outro dia em viagem pelo sertão, sobressaltei-me ao ver o céu emoldurado pela janela do carro. Dei-me conta de que o firmamento é uma imensa tela onde a Natureza pinta e borda infinitas obras-primas ao belprazer. Vi imensas bandagens verticais de nuvens ralas pinceladas pela impressionista maior. Seria uma cortina, plumas, um véu de noiva em modelo de faixas? Ou seria tudo isso junto?

Leques, girassóis, figuras espectrais gigantescas prateadas, douradas, dégradés, painéis dinâmicos de cores indefiníveis que tornam insignificantes os mais sofisticados programas de multimídia.

A abóbada celeste e suas imagens surrealistas sempre foram fonte de inspiração para os artistas terrenos. Basta erguer a vista duc in altum que não faltarão idéias repentinas em profusão. Nesse instante, olho através da janela de meu quarto e assisto ao espetáculo crepuscular. O céu cor de rosa se despede e fecha sem pressa as cortinas do último ato do astro-rei. Bravo!

A noite chega de mansinho, com suas luzes dissimuladas. No ocaso, a paisagem celeste do dia se retrai sob o manto escuro para que as estrelas e o luar ganhem ressalto em mistério e malícia.

Da outra janela do quarto, se projeta a lua, adulta, enigmática, com seus matizes de brilho e penumbra, a desvelar o erotismo latente. Nesse painel semi-oculto, o piscar hesitante das estrelas nos encandeia. Favorece a vertigem, a sedução. E, nesse transe, a humanidade se inspira para outras artes até que a mãe-natureza seja, mais uma vez, deflorada pelo sol e dê à luz uma nova criança que, por certo, será diferente de todas as outras.

E esse dia-filho deverá ser apreciado e vivido em sua singularidade e plenitude, porque é único.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Somos todos carentes





Quando me deparo com o Eros, ele se deita no chão de barriga para cima e, todo lânguido, implora minha atenção e carinho. Independentemente de eu atender aos seus apelos, esse ritual se repete intermitentemente durante o dia. Ele até come, bebe água e brinca de vez em quando, mas penso que ele viva em função de suplicar por afagos.

Não é difícil cobrir o Eros de mimos, afinal ele é o ser mais fofinho que tenho em casa. Contudo, não posso suprir toda a sua carência, pois me resta muito a viver além do doce gesto de acarinhá-lo.

Essas manifestações que acontecem em torno desse pequeno poodle de pêlos brancos e macios, ocorrem também com o bicho-homem. Mesmo que não tão explícito e humilde como o pequeno Eros o ser humano passa grande parte da sua vida a demandar sinais de aceitação e carinho.

Não conheço na face da Terra quem não seja carente. Por mais aquinhoado que seja um ente, por mais harmoniosa que seja sua família, por mais saúde que desfrute, por mais amigos com quem possa contar, por maior que seja sua conta bancária, não há quem não seja carente.

O afortunado sentirá necessidade de compartilhar a sua sorte com alguém. Sozinho, sua fortuna será insuficiente. Sentirá a falta de diálogo, de atenção e de carinho. Somente outras pessoas poderão suprir sua carência. Aquele que tem a família harmoniosa deseja encontrar equilíbrio e bem-estar fora de casa. Vive à cata de pessoas gentis no seu círculo de convivência e se ressente quando se depara com a frieza e a rispidez de outros mais carentes ainda. Os excluídos da sociedade, então, nem se fala! Esses, é sabido, são os mais carentes de tudo: habitação, alimentação, vestimenta, segurança, educação, trabalho, dignidade, amor e, claro, carinho.

Não é de surpreender se encontrarmos por aí um homem ou uma mulher no chão, de barriga para cima e, com a mesma languidez do Eros implorando atenção e carinho. Afinal, somos todos carentes, inclusive eu. Carente da sua leitura. Carente da sua identificação com o meu texto.

Don Juan: O PRÍNCIPE DAS MARÉS



Amor à primeira vista... será? Uma paixão avassaladora o domina. Nada mais tem importância. Sente-se nas nuvens: o céu é o limite. Resolve investir pesado na conquista: flores, presentes,poesia, cinema, sedução. Infalível! Ela não resiste e se entrega a esse homem de outro mundo: um deus grego!

Nos primeiros momentos, um romance tórrido, incomum. Com o passar do tempo, naturalmente, o ardor vai cedendo ao tempero suave do carinho e bem querer. Confunde esse momento com frieza e o considera assim. A partir de então, adota uma postura própria para um clima frio, por vezes gelado: protege-se, enclausura-se.

Nesse momento, já percebeu que a mulher do lado é mais atraente. Sente saudades do calor da conquista. Associa a nova musa ao fogo latente, projetando graça e sensualidade que não mais enxerga na companheira. Quer a outra. E encontra a outra. E depois outra e mais outra, numa busca sem fim. E desse modo, no seu imaginário, procura a deusa que acredita estar no Olimpo a sua espera.

Porém, atinge somente a paixão primeira - fugaz e periférica. Abandona o barco antes de navegar nas águas profundas do amor. Restringe-se às emoções das ondas que se quebram na praia da paixão. Tem medo da grandeza do (a)mar. Receia o desconhecido. Prefere ancorar na praia e ser um mero espectador da sua infinita beleza. Não se lança. Foge. Contenta-se em surfar nas ondas praianas.

Não faz idéia da intensidade do prazer que é deixar-se levar pelas águas mansas do infinito. Teme as tempestades e maremotos que acontecem na vastidão do oceano. Porém, esquece que, sem isso, não haveria ondas revoltas, nas quais encontra sua fonte de inspiração. Renuncia. E, como os antigos, só pressente no horizonte um abismo que irá tragá-lo e destruí-lo.

E nessa vertigem, vão-se passando os anos sempre a esperar a onda-deusa que não quebre na praia e o mantenha na crista de sua emoção. No entanto, como a natureza das ondas é efêmera e seu destino é se transformar em simples espumas, o príncipe das marés estará condenado a viver (e morrer) na praia.